Genocídio silencioso: um sexto da humanidade não tem o que comer
Há um genocídio silencioso no mundo. Talvez seja esse o melhor adjetivo para definir o tamanho da desgraça provocada pela insanidade humana.
Jean Ziegler
900 milhões de pessoas subalimentadas no mundo. Ou seja, quase um sexto da humanidade não tem o que comer. 100 mil pessoas morrem ao dia no mundo devido à fome. Esses são alguns dados que o suíço Jean Ziegler, professor de sociologia em Genebra e na Sorbonne, e relator especial da ONU sobre o direito à alimentação disparou, em recente visita ao Brasil. Autor de ácidos estudos sobre a fome no mundo, Ziegler veio ao Brasil em agosto, para participar de um seminário promovido pela Fundação João Mangabeira do Partido Socialista Brasileiro.
Jean Ziegler afirma: “se juntarmos alguns males do subdesenvolvimento, tais como fome, epidemia, guerras induzidas pelas multinacionais, verificaremos que, no ano passado, houve um total de mais de 58 milhões de vítimas, segundo os critérios da ONU, 2 milhões a mais que o total de vítimas da II Guerra Mundial, a maior guerra da humanidade, que durou seis anos.” O professor de sociologia não vê saídas à “ditadura mundial da desigualdade” e ao genocídio silencioso no planeta sem a realização de Reforma Agrária, o rompimento com o sistema financeiro mundial e a quebra da ideologia alienante do neoliberalismo, destinada a romper a resistência.
Para falar sobre a ditadura do capital financeiro, que segundo Ziegler é uma ditadura mundial que cria um mundo de total desigualdade, de riquezas imensas nas mãos de algumas oligarquias que são detentoras desse capital financeiro mundial, que gera riquezas muito grandes para alguns e miséria imensa e progressiva para a maioria, ele deu a seguinte entrevista ao Jornal Sem Terra.
JST - Que análise o senhor faz da situação econômica do mundo hoje, principalmente no que se refere aos países do Terceiro Mundo?
Jean Ziegler - Primeiramente, quero dizer que vivemos a ditadura do capital financeiro. É uma ditadura mundial que cria um mundo de total desigualdade, de riquezas imensas nas mãos de algumas oligarquias que são detentoras desse capital financeiro mundial, que gera riquezas muito grandes para alguns e miséria imensa e progressiva para a maioria. A população grave e permanentemente subalimentada no mundo soma cerca de 900 milhões de pessoas, aumentando a cada ano. Isso é quase 1/6 da humanidade, já que somos 6 bilhões de pessoas. A população subalimentada é destruída fisicamente por invalidez, sendo que 100 mil pessoas morrem por dia devido à fome.
Há 22 organizações especializadas em agricultura nas Nações Unidas. Uma delas, voltada para nutrição e agricultura, publicou um relatório revelando que a agricultura mundial, agora, poderia alimentar 12 bilhões de pessoas. Isso significa dar a cada indivíduo, diariamente, 2600 calorias. Ou seja, somos a metade de 12 bilhões e, a cada dia, morrem 100 mil pessoas vítimas da fome e centenas de milhões estão gravemente subalimentadas, são inválidas, incapazes de trabalhar e ter uma vida normal. Além disso, esse mal se transmite de geração a geração, sobretudo na Ásia do Sul e África, mas também aqui, porque cada uma em quatro crianças da América Latina com menos de 15 anos é gravemente subalimentada. Desse modo, há um genocídio silencioso num planeta que pode alimentar o dobro de sua população e uma reprodução biológica desse genocídio, pois há centenas de milhões de crianças que morrem na gestação, vítimas do mal desenvolvimento do feto ou do leite materno pobre em nutrientes, ou mesmo a falta de leite. Uma pessoa que morre de fome ou que tem uma vida sob a invalidez, com sofrimento permanente e crônico, é vítima de um assassinato e não de uma fatalidade. Há um culpado. É um massacre como o do Eldorado de Carajás. Os donos de multinacionais devem ser responsabilizados pelo crime. É possível identificar individualmente os assassinos. Esse é o quadro quando avaliamos somente o problema da fome. Entretanto, há outras questões, como a saúde. A Organização Mundial da Saúde faz, por exemplo, o inventário das epidemias que matam milhões de africanos, que não têm dinheiro para comprar medicamentos produzidos pelos grandes capitalistas. Os povos que vivem no hemisfério sul (4,2 bilhões de pessoas, ou seja, ¾ da humanidade) sofrem de tuberculose e malária e acabam morrendo, e os brancos da Europa, América do Norte e Austrália, que são 22% dos brancos no mundo, não sofrem isso. Epidemias matam, fome mata. Nos países subdesenvolvidos, 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável, que apresenta perigo à saúde. Há mais de 18 milhões de casos de diarréia resultante de água imprópria para consumo. Além das mais de 400 milhões de pessoas que morrem, ao ano, devido a problemas com a água. E se juntarmos todos esses números do subdesenvolvimento (fome, epidemia, guerras induzidas pelas multinacionais na África etc.), verificamos que, no ano passado, houve um total de mais de 58 milhões de vítimas, segundo os critérios da ONU. Dois milhões a mais que o total de vítimas da II Guerra Mundial, a maior guerra da humanidade, que durou seis anos, de 1939 a 1945. Ou seja, a III Guerra Mundial já está em curso no Terceiro Mundo.
JST - Diante desse cenário, quais são as alternativas para os países pobres?
Jean Ziegler - Existem muitas armas. Há um problema grave para todos nós. Pablo Neruda, um grande poeta, disse: “As piores cadeias são as da cabeça”. A grande predominância do modelo e pensamento neoliberais, de que são arautos a TV Globo, Banco Mundial, o império americano, que vê esse modelo como lei natural e a mão invisível do mercado como única maneira de animar a economia, distribuir a riqueza do mundo etc., é uma mentira de classe. É um clássico argumento. É preciso quebrar as imagens alienantes, as falsidades, as mentiras que são fábricas de ideologia para desarmar a resistência. A primeira luta de classe, ao meu ver, é essa luta teórica. E, depois, partir para o combate à situação material. A Polícia Militar que mata é, por exemplo, uma forma de repressão. O Brasil é um país muito poderoso, um laboratório da revolução mundial, e por isso estou com muito otimismo. É formidável ver a organização do Movimento dos Sem Terra hoje no Brasil. É incrível.
JST - Como senhor vê a questão da Reforma Agrária e qual o papel dela neste contexto mundial?
Jean Ziegler - Não há como resolver o problema sem Reforma Agrária. Precisamos de uma reforma para quebrar a tirania mundial do capital financeiro que determina tudo, a propriedade da terra, o comércio. Nesse sentido, tenho uma verdadeira admiração pelo MST. É um verdadeiro movimento revolucionário.
JST - E como o senhor avalia iniciativas como o Fórum Social Mundial?
Jean Ziegler - São muito boas e essenciais. O único problema é que devemos trazer africanos e árabes também, dar a luz a outros continentes. O Che não pôde participar da Conferência Tricontinental, em janeiro de 1966, mas a idéia do Che de criar frentes de resistência era muito importante. O MST é uma frente de resistência. Se houver muitas dessas frentes, as forças de repressão, mesmo do império americano, perdem intensidade, e um novo mundo pode surgir rapidamente. Se analisarmos o Brasil, por exemplo, que está em grande parte entregue às multinacionais, à burguesia, o inimigo é terrível, com certeza. Todavia, se esse inimigo tem muitos adversários, ele não pode resistir por muito tempo.
JST - As elites insistem em dizer que o Fórum Social Mundial não apresentou propostas concretas de solução. O que o senhor pensa disso?
Jean Ziegler - Não há problema nisso. Não é essa nossa tarefa, não é possível projetar um modelo. Seria arrogância total. Sabemos o que não queremos e ao quê somos intolerantes. Como a fome, por exemplo. Um deputado federal da Suíça lutava sempre em seu mandato contra o ciclo bancário, pois a Suíça é o país mais rico do mundo, em termos per capita. Não tem matéria-prima, mas tem o capital do mundo inteiro, advindo inclusive da corrupção, criando uma riqueza incrível para a oligarquia bancária. Eu não quero, como suíço, viver bem do sangue dos povos do mundo. E por isso quero quebrar o ciclo bancário, acabar com a fuga de capitais, com a pilhagem financeira; eu sei o que não quero. E o destino coletivo dos suíços, quando essa ditadura do capital for quebrada, depende do mistério da liberdade. O caminho se faz ao caminhar, como diz o grande poeta Antônio Machado. E esse é um processo revolucionário.
JST - E sobre a dívida externa. O senhor acha que o Brasil deve romper com o sistema financeiro, com a moratória da dívida externa?
Jean Ziegler - Totalmente. Não há outra possibilidade. Sempre digo que se fosse possível colocar Jesus Cristo no poder amanhã, no México, Brasil, não mudaria nada.
Jornal dos Trabalhadores Rurais sem Terra
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Associação dos professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo.
Associação dos professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo.
Plenária Estadual dos Professores de Filosofia e Filósofos, no dia 24 de setembro de 2011, às 10 horas, Rua Doutor José de Queirós Aranha, 342 – Vila Mariana – SP, Próximo ao Metrô Ana Rosa.
Comunicado
No dia 18 de agosto de 2011, realizamos uma reunião com dirigentes da Aproffesp, as 14 horas, no centro de São Paulo, onde foi deliberado :
Vamos confeccionar um boletim da Associação para ser distribuído na assembléia estadual dos professores que será realizada no dia 02/09/2011, as 14 horas na praça da república, convidando os interessados para uma plenária estadual de professores de filosofia a ser realizada no dia 24 de setembro de 2011, as 10 horas na Vila Mariana, Capital.
Pauta da Plenária:
1-A estruturação e organização diante da ofensiva dos governos;
2-Ampliação do número de aulas de filosofia no segundo e terceiro ano do ensino médio;
3- implantação da filosofia no ensino fundamental, com base na enquete promovida pela aproffesp;
4- Nossa participação no caderno da revista de filosofia e como divulgá-lo nas escolas;
5-Atuação e funcionamento pra valer do coletivo Estadual de filosofia, Sociologia e Psicologia, bem como nossa atuação no Coletivo Nacional de filosofia.
6-Organizar núcleos da aproffesp no Estado.
Sem mais,
Atenciosamente,
Diretoria da
Associação.
Avança a Organização dos Professores de filosofia
A histórica luta pela volta da Filosofia no Ensino Médio
A Luta pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia na grade curricular percorreu um longo caminho até os dias atuais. Nessa luta, a atuação organizada de entidades afins e da APEOESP, foi determinante, dado a sua capacidade de mobilização e articulação política no cenário Nacional. Contudo, a participação dos professores nessa luta foi fundamental no seu cotidiano, nos encontros realizados, nas caravanas à Brasília e no acompanhamento direto aos processos e projetos de lei que tramitavam no congresso e que repousavam no MEC, sendo finalmente desengavetados e com muita luta aprovados. O dia 7 de junho de 2006 ficará na memória e história de mais de trezentos professores e estudantes que compareceram ao plenário do CNE – Conselho Nacional de Educação. Com essa mobilização, a luta pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio deu uma virada na página e na concepção da política educacional brasileira. Em 02-06-08, foi sancionado o PLC 04/08, que alterou o Artigo 36 da LDB/96, selando de vez a volta do ensino das disciplinas Filosofia e Sociologia nas escolas de todo o Brasil!
Segundo o Professor Paulo Neves, da Secretaria Estadual de Comunicação da APEOESP:
“A segunda caravana que acompanhou a votação possibilitou inclusive a realização de um ato simbólico de comemoração no plenário do CNE, pelos professores presentes. Mostramos o peso e a importância do Estado de São Paulo e, em particular da APEOESP, para o êxito deste movimento. Vale destacar o significado desta conquista, que não se restringe apenas ao retorno das duas disciplinas ao currículo do Ensino Médio. Ela põe um freio na visão educacional neoliberal que tomou de assalto a educação brasileira nas últimas décadas com objetivo de flexibilizar e desregulamentar a profissão docente, sendo responsável pela desvalorização do trabalho do professor e, sobretudo pela precarização da educação”.
Do ponto de vista da Organização da Filosofia, o 1º Encontro Nacional de Filosofia e Sociologia realizado nos dias 22 a 24 de julho de 2007 no Anhembi-SP, foi um marco determinante nesse processo de consolidação das disciplinas, que contou com a força direta dos educadores, onde definimos desde a proposta de realização do encontro, a organização e na coordenação do referido encontro. Entidades Nacionais como a UNE, UBES e outras também contribuíram diretamente nesse processo e no dia do Encontro, apresentamos em linhas gerais a necessidade de nos articularmos em nível nacional com o objetivo de acumularmos ainda mais força para a consolidação da disciplina de filosofia no ensino médio no Brasil inteiro.
Na época o prof. Aldo Santos apresentou aos delegados um documento básico da proposta organizativa dos professores de filosofia em nível nacional, realizamos uma plenária dentro do encontro e constituímos a Coordenação Nacional do Coletivo Nacional de Filosofia que dentre outros pontos propôs reforçar a nossa organização nos Estados, para pressionarmos as Secretarias Estaduais de Educação pela imediata implantação da Filosofia, e ao mesmo tempo, nos organizarmos nacionalmente. Criou-se então o coletivo Nacional de Filosofia em 2007 e a luta ganhou expressão com a realização, em 2008, do IX Encontro Estadual do Coletivo de Filosofia, Sociologia e Psicologia da APEOESP. Várias propostas foram aprovadas no sentido de fortalecer a nossa luta pela efetiva implantação da Filosofia no currículo do Ensino Médio.
O Encontro Nacional viabilizou a idéia e as condições objetivas dos professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo no sentido de se constituir um campo próprio de reflexão, elaboração e contribuição do pensamento acadêmico com o mundo do trabalho em que vivemos. Uma das polêmicas centrais do IX Encontro do Coletivo de filosofia, Sociologia e Psicologia da APEOESP foi o enunciado da nossa proposta sobre a necessidade da fundação de uma entidade dos filósofos, concebida sem a pretensão ou preocupação de concorrer com o sindicato estadual dos professores, haja vista que do ponto de vista sindical global estamos muito bem organizados e abrigados nesta entidade.
Nosso objetivo foi apresentado e aprovado nas resoluções finais do encontro. Em Setembro de 2009 toma posse a primeira Diretoria eleita da Associação dos Professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo – APROFFESP - numa Plenária Estadual realizada no dia 26 de Setembro de 2009, na Rua Carlos Petit, nº 199, Vila Mariana. Os membros eleitos tomaram posse, tendo por base o resultado das eleições realizadas no dia 26/08/2009, com a votação de 226 professores no Estado (foto da posse).
Hoje devemos nos unir e nos organizar ainda mais pela ampliação da carga horária, pela introdução da filosofia no ensino fundamental, abrir concurso para contratação de mais professores, além da pauta comum dos sindicatos que defendemos, apoiamos e militamos para que as mesmas se efetivem. Devemos também construir coletivamente as ferramentas e conteúdos curriculares, que assegurem a formação propedêutica, sem banalizar ou subtrair o conteúdo crítico e o caráter revolucionário da própria filosofia.
Para nós da Associação, a organização dos trabalhadores, nas mais variadas manifestações no mundo do trabalho, é fundamental e indispensável rumo aos avanços numa perspectiva transformadora e de superação das condições desumanas hoje existentes na sociedade brasileira e no mundo.
Organizar é preciso!!!
Posse da diretoria da APROFFESP: Aldo Santos: presidente, Wanda: vice-presidente, Gilmar: tesoureiro, Jesus: secretário geral, Chico Gretter: normas pedagógicas, Jairo: relações externas e Alan: comunicação.
A filosofia no contexto do debate atual.
“A filosofia está presente na vida de todos. No mundo ocidental, costuma-se dizer que remonta aos gregos. De uma perspectiva mais ampla, podemos dizer que ela está presente na vida do ser humano desde um tempo imemorial, anterior às primeiras civilizações. Dos primórdios do Homo sapiens até as primeiras organizações humanas, cada atitude individual ou coletiva, cada fenômeno físico ou avanço técnico, cada nova percepção dos meandros da alma humana foi entremeada por ações passíveis de análise filosófica.
Fundamentação teórico-pedagógica
A disciplina de filosofia tornou-se obrigatória na grade curricular das escolas de Ensino Médio a partir de junho de 2008, com a aprovação da Lei n° 11.684[1]. Essa nova lei reforçou um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), de 2006, que incluía as disciplinas de filosofia e sociologia no Ensino Médio, mas não definia em que séries elas deveriam ser implantadas.
Em 1971, o ensino dessas disciplinas foi suprimido e substituído por aulas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), com o intuito claro de reduzir as possibilidades de ensino crítico e de formação do pensamento autônomo na trajetória escolar.
Nos anos de 1980, com o fim do regime militar e o fortalecimento dos movimentos democráticos, o debate sobre o retorno do ensino de filosofia ganhou novos contornos. Desde então, a disciplina de filosofia no Ensino Médio tem sido entendida como componente curricular relevante na formação da consciência crítica dos alunos. Na versão inicial dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)[2], publicada em 1999, a filosofia constava como conhecimento curricular específico, cujas competências e habilidades deveriam ser contempladas no programa de Ensino Médio.
O ensino de filosofia encontra-se articulado à área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, ao lado dos componentes curriculares geografia, história e sociologia. Na história da educação brasileira, a filosofia oscilou entre períodos de ausência sistemática e fases de inserção opcional; no entanto, na prática, conteúdos e temas filosóficos sempre contribuíram de um modo assistemático com as reflexões do ensino de história, geografia e, às vezes, literatura.
Recentemente, a inclusão obrigatória da filosofia no Ensino Médio transformou esse quadro e criou um enorme desafio para professores e autores de materiais de ensino: pela primeira vez na história da educação brasileira de ensino público, democratizado e praticamente universal inclui a filosofia como componente da grade curricular.
Esse desafio se consubstanciava na massificação (em termos qualitativos e quantitativos) que se observa nessa etapa da trajetória escolar brasileira, aliada à precária condição em que chega esse alunado (por questões estruturais da educação brasileira), detentor de uma formação que passa distante de qualquer preocupação com abstrações e conflitos éticos, dois dos principais focos da filosofia.
Este livro define a filosofia como um campo de conhecimento autônomo, centrado na perspectiva da atividade e do pensamento filosófico e, portanto, marcado por um método, assim como por um conjunto de conceitos e temas centrais. Todavia, foi nossa preocupação também estabelecer um diálogo interdisciplinar com os componentes da área de Ciências Humanas.
Segundo os objetivos traçados pelos parâmetros Curriculares Nacionais – detalhados no Edital do Programa Nacional do Livro Didáticos para 2012 - , um livro de filosofia, no Ensino Médio, deve incentivar a constituição da “autonomia, da reflexão e da pluralidade de perspectivas sob as quais são consideradas desde e experiência social imediata até o conjunto de saberes estabelecidos[3]”. Esse princípio geral tem, pelo menos, três desdobramentos importantes que caracterizam a confecção desta obra.
Em primeiro lugar, a compreensão de que o ensino de filosofia deve se conectar às indagações da experiência cotidiana e, a partir delas, construir os conceitos e os princípios dos pensamento filosófico. Esse movimento fundamental abre a maioria dos capítulos: a indagação e o estranhamento diante de atos, sentidos e ideais corriqueiras e perante a percepção imediata e a vivência mais comum. Essa perspectiva supera, assim, a noção de filosofia como conhecimento erudito, um saber distante do mundo material, das preocupações mundanas, dos anseios individuais e doa conflitos sociais, restrito, portanto, apenas a iniciados e a alunos “inteligentes”.
Em segundo lugar, a filosofia, neste livro, pressupõe o estudo da história da filosofia e das condições materiais que deram forma e sentido ao surgimento e ao desenvolvimento da atividade filosófica. Entre a história social, econômica e o pensamento há, pois, uma inter-relação complexa: de um lado, a filosofia expressa os dilemas de seu tempo, procurando responder aos questionamentos nascidos da experiência concreta dos seres humanos em uma determinada sociedade; de outro, a filosofia também tem sua história, constituindo, por isso, um diálogo permanente com a sociedade à medida que lança novos olhares e influencia as transformações culturais. Nessa perspectiva, não há “fatores”, “causas” e “conseqüências”, mas desdobramentos do pensamento filosófico no interior de processos históricos mais amplos.
Finalmente, o terceiro traço marcante desta obra refere-se à constituição de um método próprio da filosofia que a diferencia das outras Ciências Humanas e lhe permite operar determinados objetos sob um ponto de vista único, original. Os fundamentos do método estão explicitados nos capítulos 1 e 2, mas percorrem toda a estrutura do livro.
Trata-se de compreender a filosofia como “pensamento sistemático”, isto é, resultado do trabalho intelectual e da apropriação de determinadas ferramentas de análise, reflexão e crítica sobre o ser humano, suas idéias e sua interação com o mundo. Assim, afastamos a filosofia de outro risco: a vulgarização da atitude filosófica, considerada um simples conjunto de idéias e opiniões.
Esse é um perigo bastante comum no Ensino Médio, já que a transformação do programa de filosofia em uma conversa mais ou menos organizada entre alunos e professor é recorrente em sala de aula. Deve-se considerar, contudo, que, embora fundamental, o diálogo não é a finalidade da disciplina, mas um meio pelo qual determinados conceitos são construídos coletivamente e um instrumento para que as múltiplas opiniões sejam analisadas, discutidas, aprofundadas e transformadas pela atitude filosófica.
Para entender a todos os objetivos acima explicitados, esta obra foi estruturada em duas grandes partes: “ a atividades teórica” e a “atividade prática”. Na primeira, organizam-se os conceitos fundamentais (razão, verdade, conhecimento) e as principais ferramentas do pensamento filosófico ( a lógica e a metafísica); na segunda, constituem-se os campos de investigação da filosofia sobre a experiência humana: a cultura e as artes, a religião, a ciência, a ética e a política. Nesse percurso, acreditamos percorrer o longo caminho da formação e dos desdobramentos do pensamento filosófico, levando em conta a diversidade de temas e a pluralidade de concepções e tradições filosóficas.
Objetivos Gerais
Três são os objetivos que norteiam a obra:
1. Apresentar os conceitos fundamentais do pensamento filosófico ocidental, constituído historicamente, como ferramentas de formação da atitude filosófica;
2. Colaborar para a reflexão sobre as relações entre concepções filosóficas e as condições históricas e a vida cotidiana;
3. Desenvolver o espírito crítico e a reflexão filosófica sobre questões contemporâneas, contribuindo para a criação e o fortalecimento de práticas solidárias com própria comunidade.
Interpretar a palavra é interpretar o mundo.
Entendemos que a tarefa fundamental do ensino de filosofia é contribuir para a formação do pensamento crítico. Isso significa dotar o aluno de ferramentas que o tornem cada vez mais capaz de interpretar os textos, analisar os conceitos e, simultaneamente, compreender melhor o mundo, identificando as questões centrais da contemporaneidade e estabelecendo nexos e relações com outros momentos da história do pensamento humano. Recordando Paulo Freire, leitura da palavra e leitura do mundo são indissociáveis. O ensino de filosofia, portanto, pressupõe um vínculo indissociável com o mundo ao nosso redor.”
Obs.
Texto publicado no livro da filósofa Marilena Chauí, no manual do professor, respectivamente nas paginas, 3,4,5, manual do professor, volume único. A parte introdutória também faz parte do mesmo compêndio e esta na página 3 da apresentação.
Bibliografia: Chauí, Marilena,
Iniciação a Filosofia: ensino médio, volume único, Editora ática, 2010
[1] MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei?L11684.htm> Acesso em: abril de 2010
[2] MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf> Acesso em: abril de 2010
[3] Programa Nacional do Livro Didático – PNLD 2012. Ciências Humanas e suas tecnologias, p. 26. Disponível em: http://www.fnde.gov.br/index.php/edital-pndl-2012-ensino-medio Acesso em: abril de 2010.
domingo, 28 de agosto de 2011
Avança a Organização dos Professores de filosofia
A histórica luta pela volta da Filosofia no Ensino Médio
A Luta pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia na grade curricular percorreu um longo caminho até os dias atuais. Nessa luta, a atuação organizada de entidades afins e da APEOESP, foi determinante, dado a sua capacidade de mobilização e articulação política no cenário Nacional. Contudo, a participação dos professores nessa luta foi fundamental no seu cotidiano, nos encontros realizados, nas caravanas à Brasília e no acompanhamento direto aos processos e projetos de lei que tramitavam no congresso e que repousavam no MEC, sendo finalmente desengavetados e com muita luta aprovados. O dia 7 de junho de 2006 ficará na memória e história de mais de trezentos professores e estudantes que compareceram ao plenário do CNE – Conselho Nacional de Educação. Com essa mobilização, a luta pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio deu uma virada na página e na concepção da política educacional brasileira. Em 02-06-08, foi sancionado o PLC 04/08, que alterou o Artigo 36 da LDB/96, selando de vez a volta do ensino das disciplinas Filosofia e Sociologia nas escolas de todo o Brasil!
Segundo o Professor Paulo Neves, da Secretaria Estadual de Comunicação da APEOESP:
“A segunda caravana que acompanhou a votação possibilitou inclusive a realização de um ato simbólico de comemoração no plenário do CNE, pelos professores presentes. Mostramos o peso e a importância do Estado de São Paulo e, em particular da APEOESP, para o êxito deste movimento. Vale destacar o significado desta conquista, que não se restringe apenas ao retorno das duas disciplinas ao currículo do Ensino Médio. Ela põe um freio na visão educacional neoliberal que tomou de assalto a educação brasileira nas últimas décadas com objetivo de flexibilizar e desregulamentar a profissão docente, sendo responsável pela desvalorização do trabalho do professor e, sobretudo pela precarização da educação”.
Do ponto de vista da Organização da Filosofia, o 1º Encontro Nacional de Filosofia e Sociologia realizado nos dias 22 a 24 de julho de 2007 no Anhembi-SP, foi um marco determinante nesse processo de consolidação das disciplinas, que contou com a força direta dos educadores, onde definimos desde a proposta de realização do encontro, a organização e na coordenação do referido encontro. Entidades Nacionais como a UNE, UBES e outras também contribuíram diretamente nesse processo e no dia do Encontro, apresentamos em linhas gerais a necessidade de nos articularmos em nível nacional com o objetivo de acumularmos ainda mais força para a consolidação da disciplina de filosofia no ensino médio no Brasil inteiro.
Na época o prof. Aldo Santos apresentou aos delegados um documento básico da proposta organizativa dos professores de filosofia em nível nacional, realizamos uma plenária dentro do encontro e constituímos a Coordenação Nacional do Coletivo Nacional de Filosofia que dentre outros pontos propôs reforçar a nossa organização nos Estados, para pressionarmos as Secretarias Estaduais de Educação pela imediata implantação da Filosofia, e ao mesmo tempo, nos organizarmos nacionalmente. Criou-se então o coletivo Nacional de Filosofia em 2007 e a luta ganhou expressão com a realização, em 2008, do IX Encontro Estadual do Coletivo de Filosofia, Sociologia e Psicologia da APEOESP. Várias propostas foram aprovadas no sentido de fortalecer a nossa luta pela efetiva implantação da Filosofia no currículo do Ensino Médio.
O Encontro Nacional viabilizou a idéia e as condições objetivas dos professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo no sentido de se constituir um campo próprio de reflexão, elaboração e contribuição do pensamento acadêmico com o mundo do trabalho em que vivemos. Uma das polêmicas centrais do IX Encontro do Coletivo de filosofia, Sociologia e Psicologia da APEOESP foi o enunciado da nossa proposta sobre a necessidade da fundação de uma entidade dos filósofos, concebida sem a pretensão ou preocupação de concorrer com o sindicato estadual dos professores, haja vista que do ponto de vista sindical global estamos muito bem organizados e abrigados nesta entidade.
Nosso objetivo foi apresentado e aprovado nas resoluções finais do encontro. Em Setembro de 2009 toma posse a primeira Diretoria eleita da Associação dos Professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo – APROFFESP - numa Plenária Estadual realizada no dia 26 de Setembro de 2009, na Rua Carlos Petit, nº199, Vila Mariana. Os membros eleitos tomaram posse, tendo por base o resultado das eleições realizadas no dia 26/08/2009, com a votação de 226 professores no Estado (foto da posse).
Hoje devemos nos unir e nos organizar ainda mais pela ampliação da carga horária, pela introdução da filosofia no ensino fundamental, abrir concurso para contratação de mais professores, além da pauta comum dos sindicatos que defendemos, apoiamos e militamos para que as mesmas se efetivem. Devemos também construir coletivamente as ferramentas e conteúdos curriculares, que assegurem a formação propedêutica, sem banalizar ou subtrair o conteúdo crítico e o caráter revolucionário da própria filosofia.
Para nós da Associação, a organização dos trabalhadores, nas mais variadas manifestações no mundo do trabalho, é fundamental e indispensável rumo aos avanços numa perspectiva transformadora e de superação das condições desumanas hoje existentes na sociedade brasileira e no mundo.
Organizar é preciso!!!
Posse da diretoria da APROFFESP: Aldo Santos: presidente, Wanda: vice-presidente, Gilmar: tesoureiro, Jesus: secretário geral, Chico Gretter: normas pedagógicas, Jairo: relações externas e Alan: comunicação.
sábado, 27 de agosto de 2011
Anton Makarenko - O professor do coletivo
| Anton Makarenko - O professor do coletivo |
O mestre ucraniano Anton Makarenko concebeu um modelo de escola baseado na vida em grupo, na autogestão, no trabalho e na disciplina que contribuiu para a recuperação de jovens infratores
Nova Escola
"É preciso mostrar aos alunos que o trabalho e a vida deles são uma parte do trabalho e da vida do país" Foto: Alexandre Sassaki
O método criado por ele era uma novidade porque organizava a escola como coletividade e levava em conta os sentimentos dos alunos na busca pela felicidade aliás, um conceito que só teria sentido se fosse para todos. O que importava eram os interesses da comunidade e a criança tinha privilégios impensáveis na época, como opinar e discutir suas necessidades no universo escolar. "Foi a primeira vez que a infância foi encarada com respeito e direitos", diz Cecília da Silveira Luedemann, educadora e autora do livro Anton Makarenko, Vida e Obra A Pedagogia na Revolução.
Mais que educar, com rigidez e disciplina, ele quis formar personalidades, criar pessoas conscientes de seu papel político, cultas, sadias e que se tornassem trabalhadores preocupados com o bem-estar do grupo, ou seja, solidários. Na sociedade socialista de então, o trabalho era considerado essencial para a formação do homem, não apenas um valor econômico. Makarenko aprendeu tudo na prática, na base de acertos e erros, primeiro na escola da Colônia Gorki e, em seguida, na Comuna Dzerjinski. Cada etapa de suas experiências foi registrada em relatórios, textos e livros. As dificuldades e os desafios têm muitos paralelos com os dos professores de hoje. A saída encontrada há quase um século correspondia às necessidades da época, mas servem de reflexão para buscar soluções atuais e entender a educação no mundo.
Proteger a infância
A idéia do coletivo surge como respeito a cada aluno, oposta à visão de massificação que despersonaliza a criança. O grupo estimula o desenvolvimento individual. Como a instituição familiar (e tudo o mais na então União Soviética) estava em crise, essa foi a alternativa encontrada pelo educador para proteger a infância de seu país. O sentimento de grupo não era uma idéia abstrata. Tinha raízes nos ideais revolucionários e Makarenko soube como transformá-la em algo concreto. A colônia era auto-suficiente e a sobrevivência de cada um dependia do trabalho de todos. Caso contrário, não haveria comida nem condições de habitação aceitáveis.
Valorizar a disciplina
Para que a vida em comunidade desse certo, era essencial que cada aluno tivesse claras suas responsabilidades. "Nunca mais ladrões nem mendigos: somos os dirigentes." Makarenko era conhecido como um educador aberto, mas rígido e duro. Ele acreditava que o planejamento e o cumprimento das metas estabelecidas por todos só se concretizariam com uma direção muito firme. Por isso, os alunos tinham consciência de que a disciplina não era um fim, mas um meio para o sucesso da vida na escola. O descumprimento de uma norma podia ser punido severamente, desde que alunos e professores assim o desejassem, depois de muita discussão.
Envolver a família
Makarenko publicou em 1938, incompleto, o Livro dos Pais. O objetivo era mostrar a importância da participação da família na escola e como educar as crianças em tempos difíceis. Alguns estudantes moravam nas escolas dirigidas por ele. O educador ucraniano fazia questão da presença dos pais, que eram estimulados a participar de atividades culturais e recreativas. A escola tinha o papel de orientar a família, que deveria encará-la como um órgão normativo. Pais muito "melosos" ou ausentes seriam incapazes de educar uma pessoa forte, madura e inteligente. "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem", dizia.
Makarenko na escola: o aluno ganha voz
O trabalho em oficinas fazia parte do método: recurso
para a autogestão da escola
para a autogestão da escola
Um tempo de transformações
"Você já se alistou como
voluntário?": cartaz convoca
trabalhadores para defender
a Revolução Russa.
Foto: Divulgação Centro
Cultural Banco do Brasil
voluntário?": cartaz convoca
trabalhadores para defender
a Revolução Russa.
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Cultural Banco do Brasil
Biografia
Anton Semionovich Makarenko nasceu em 1888 na Ucrânia, filho de um operário ferroviário e de uma dona de casa. Aprendeu a ler e escrever com a mãe, como a maioria das crianças da época, e logo depois foi matriculado numa escola primária. Lá teve acesso às disciplinas de Língua Russa, Aritmética, Geografia, História, Ciências Naturais, Física, Desenho, Canto, Ginástica e Catecismo, mas não pôde estudar sua língua materna, a ucraniana, proibida pelo império czarista na Rússia, nem Lógica e Filosofia, exclusivas da elite. Aos 17 anos, Makarenko concluiu o curso de Magistério e entrou em contato com as idéias revolucionárias de Lênin e Máximo Gorki, que influenciaram sua visão de mundo e de educação. Sua primeira experiência em sala de aula ocorreu em 1906, na Escola Primária das Oficinas Ferroviárias, onde lecionou por oito anos. Em seguida assumiu a direção de uma escola secundária. Mais consciente do modelo de educação que queria aplicar, ampliou o espaço cultural e mudou o currículo com a ajuda de pais e professores. E estabeleceu o ensino da língua ucraniana. Sua mais marcante experiência deu-se de 1920 a 1928, na direção da Colônia Gorki, instituição rural que atendia crianças e jovens órfãos que haviam vivido na marginalidade. Lá ele pôs em prática um ensino que privilegiava a vida em comunidade, a participação da criança na organização da escola, o trabalho e a disciplina. Publicou novelas, peças de teatro e livros sobre educação, sendo Poema Pedagógico o mais importante. Morreu de ataque cardíaco durante uma viagem de trem em 1939, ano que ficaria marcado pelo início da Segunda Guerra Mundial.
Anton Semionovich Makarenko nasceu em 1888 na Ucrânia, filho de um operário ferroviário e de uma dona de casa. Aprendeu a ler e escrever com a mãe, como a maioria das crianças da época, e logo depois foi matriculado numa escola primária. Lá teve acesso às disciplinas de Língua Russa, Aritmética, Geografia, História, Ciências Naturais, Física, Desenho, Canto, Ginástica e Catecismo, mas não pôde estudar sua língua materna, a ucraniana, proibida pelo império czarista na Rússia, nem Lógica e Filosofia, exclusivas da elite. Aos 17 anos, Makarenko concluiu o curso de Magistério e entrou em contato com as idéias revolucionárias de Lênin e Máximo Gorki, que influenciaram sua visão de mundo e de educação. Sua primeira experiência em sala de aula ocorreu em 1906, na Escola Primária das Oficinas Ferroviárias, onde lecionou por oito anos. Em seguida assumiu a direção de uma escola secundária. Mais consciente do modelo de educação que queria aplicar, ampliou o espaço cultural e mudou o currículo com a ajuda de pais e professores. E estabeleceu o ensino da língua ucraniana. Sua mais marcante experiência deu-se de 1920 a 1928, na direção da Colônia Gorki, instituição rural que atendia crianças e jovens órfãos que haviam vivido na marginalidade. Lá ele pôs em prática um ensino que privilegiava a vida em comunidade, a participação da criança na organização da escola, o trabalho e a disciplina. Publicou novelas, peças de teatro e livros sobre educação, sendo Poema Pedagógico o mais importante. Morreu de ataque cardíaco durante uma viagem de trem em 1939, ano que ficaria marcado pelo início da Segunda Guerra Mundial.
Para pensar
Makarenko talvez tenha sido o educador que levou às conseqüências mais radicais as questões do espírito de grupo e do trabalho coletivo. Tudo era discutido entre alunos, professores e a direção da Colônia Gorki e da Comuna Dzerzinski. Por essa razão, embora tenha vivido numa época e num contexto totalmente diferentes dos atuais, vale a pena conhecer suas idéias e pensar sobre elas. Mas será que as crianças e os jovens atuais conhecem de fato o significado de grupo? Ou a idéia de coletivo é abstrata? Os jovens se sentem responsáveis pela escola e pelo bem-estar de seus colegas? "Precisamos pensar se estamos formando pessoas cada vez mais individualistas ou coletivas", diz a educadora Cecília da Silveira Luedemann. Estamos realmente educando para a colaboração e a solidariedade?
A obra de Makarenko provoca ainda uma reflexão sobre a disciplina.
Estamos sendo permissivos demais? Como atingir o equilíbrio entre limites e liberdade? Makarenko dá algumas respostas. Podemos não concordar totalmente com elas, mas é inegável que seu trabalho produziu resultados positivos num momento de grandes dificuldades sociais. Não estaremos nós em momento equivalente?
Makarenko talvez tenha sido o educador que levou às conseqüências mais radicais as questões do espírito de grupo e do trabalho coletivo. Tudo era discutido entre alunos, professores e a direção da Colônia Gorki e da Comuna Dzerzinski. Por essa razão, embora tenha vivido numa época e num contexto totalmente diferentes dos atuais, vale a pena conhecer suas idéias e pensar sobre elas. Mas será que as crianças e os jovens atuais conhecem de fato o significado de grupo? Ou a idéia de coletivo é abstrata? Os jovens se sentem responsáveis pela escola e pelo bem-estar de seus colegas? "Precisamos pensar se estamos formando pessoas cada vez mais individualistas ou coletivas", diz a educadora Cecília da Silveira Luedemann. Estamos realmente educando para a colaboração e a solidariedade?
A obra de Makarenko provoca ainda uma reflexão sobre a disciplina.
Estamos sendo permissivos demais? Como atingir o equilíbrio entre limites e liberdade? Makarenko dá algumas respostas. Podemos não concordar totalmente com elas, mas é inegável que seu trabalho produziu resultados positivos num momento de grandes dificuldades sociais. Não estaremos nós em momento equivalente?
Quer saber mais?
Anton Makarenko, Vida e Obra A Pedagogia na Revolução, Cecília da Silveira Luedemann, 432 págs., Ed. Expressão Popular, tel. (0_ _11) 3105-9500, 15 reais
Poema Pedagógico, 3 vols., Anton Makarenko, Ed. Brasiliense, 1983 (disponível apenas em bibliotecas)
Conferências sobre Educação Infantil, Anton Makarenko, Ed. Moraes, 1981 (disponível apenas em bibliotecas)
Anton Makarenko, Vida e Obra A Pedagogia na Revolução, Cecília da Silveira Luedemann, 432 págs., Ed. Expressão Popular, tel. (0_ _11) 3105-9500, 15 reais
Poema Pedagógico, 3 vols., Anton Makarenko, Ed. Brasiliense, 1983 (disponível apenas em bibliotecas)
Conferências sobre Educação Infantil, Anton Makarenko, Ed. Moraes, 1981 (disponível apenas em bibliotecas)
Nova Escola
O Caso dos Universos Paralelos
| O Caso dos Universos Paralelos |
Por que o multiverso, por mais estranho que possa parecer, é uma idéia científica sólida? Bem-vindo ao multiverso
Alexander Vilenkin
O universo assim como o conhecemos originou-se de uma grande explosão que denominamos de big bang. Por quase um século, os cosmologistas vêm estudando o que aconteceu após essa explosão: como o universo se expandiu e se resfriou e como as galáxias foram gradualmente agrupadas pela gravidade. A natureza da explosão em si se tornou foco de pesquisas somente recentemente. Ela é o assunto da teoria da inflação, a qual foi desenvolvida em meados de 1980 por Alan Guth, Andrei Linde e outros, levando a uma nova e radical visão do universo.
A inflação é um período de expansão superrápida e acelerada na história cósmica primitiva. É tão rápida que numa fração de segundos uma pequena partícula subatômica é inflada a dimensões muito maiores que toda uma região observada naquele momento. No final do processo de inflação, a energia que direciona a expansão dá origem a uma bola de fogo de partículas e de radiação. Isso é o que chamamos de big bang.

O término da inflação é iniciado pelo quantum, pelos processos probabilísticos, e não ocorre em todos os lugares ao mesmo tempo. Em nossa vizinhança cósmica, a inflação terminou há 13,7 bilhões de anos, mas ainda continua em partes remotas do universo, e outras regiões "normais", como a nossa, estão constantemente sendo formadas. As novas regiões parecem-se como bolhas pequenas e microscópicas, e começam a crescer imediatamente. As bolhas continam crescendo sem ligações; em seu meio-tempo elas são comandadas àparte da expansão inflacionária, deixando espaço para que mais bolhas se formem. Esse processo eterno é denominado inflação eterna. Vivemos numa dessas bolhas e podemos observar somente uma pequena parte dela. Não importa quão longe viajemos, não podemos ir além dos limites em expansão de nossa bolha, então, para propósitos práticos, vivemos numa bolha-universo auto-sustentável.
A teoria da inflação explicou algumas das outras características misteriosas do big bang que foram postuladas antes. Ela criou também diversas predições que podem ser medidas, as quais foram confirmadas espetacularmente por observações. Por quanto a inflação se tornou o paradigma mestre da cosmologia.
Outro aspecto chave das novas visões de mundo provém da teoria das cordas, a qual é atualmente a melhor candidata para a teoria fundamental da natureza. A teoria das cordas permite um número muito grande de soluções para descrever os universos-bolha juntamente às diversas propriedades físicas. As quantidades que denominamos constantes da natureza, tais como a massa de partículas elementares, a constante gravitacional de Newton, e outras, possuem valores diferentes em diferentes tipos de bolhas. Agora combine isso com a teoria da inflação. Cada tipo de bolha possui uma determinada probabilidade de se formar num espaço em inflação. Então, inevitavelmente, um número ilimitado de bolhas de todos os tipos possíveis serão formados durante a inflação eterna.
Essa visão do universo, ou multiverso, assim como é chamado, explica os velhos mistérios do por quê as constantes da natureza aparentam estar em sintonia para a emergência da vida. A razão é que observadores inteligentes existem somente naquelas raras bolhas nas quais, por pura coincidência, as constantes ocorrem exatamente para que a vida se desenvolva. O resto do multiverso se mantém estéril, mas não há ninguém lá para se preocupar com isso.
Alguns dos meus colaboradores físicos acham a teoria do multiverso impressionante. Qualquer teoria na física surge ou é derrubada dependendo se as predições estão de acordo com os dados. Mas como podemos verificar a existência de outras bolhas de universo? Paul Steinhardt e George Ellis discutem, por exemplo, que a teoria do multiverso não é científica, pois não pode ser testada, até mesmo seu princípio.
Supreendentemente, os testes observacionais das imagens do multiverso podem ser possíveis. Anthony Aguirre, Matt Johnson, Matt Kleban e outros alertaram que uma colisão de nossa bolha em expansão com outra bolha do multiverso poderia produzir uma marca na radiação cósmica de fundo - um ponto arrendondado de maior ou menor intensidade de radiação. A detecção de tal ponto com um perfil de intensidade previsto poderia fornecer evidências diretas para a existência de outros universos-bolha. A procura está lançada, porém, infelizmente, não há garantias de que as colisões entre as bolhas possam ter ocorrido dentro do nosso horizonte cósmico.
Há ainda outras abordagens que podemos seguir. A idéia é utilizar nosso modelo teórico do multiverso para prever as constantes da natureza esperadas, mensurando-as em nossa região local. Se as constantes variam de uma bolha para outra do universo, seus valores locais não podem ser previstas com certeza, mas ainda podemos fazer predições estatísticas. Podemos criar derivações a partir da teoria de quais valores das constantes têm maior probabilidade de ser medida por um observador comum no multiverso. Assumindo-se que somos esses comuns - a afirmação que denomino de princípio da mediocridade - podemos, então, prever os valores mais prováveis das constantes em nossa bolha.
Essa estratégia tem sido aplicada à densidade da energia no vácuo, também conhecida como "energia escura". Esteven Weingerg notou que em regiões onde a energia escura é grande há uma expansão muito rápida do universo, impedindo a matéria de formar galáxias e estrelas. Os observadores aparentemente não estão presentes nessas regiões. Cálculos demonstram que a maior parte das galáxias (e, então, outros observadores) estão em regiões onde a energia escura é quase da mesma densidade da matéria originada no período da formação das galáxias. As previsões dizem que um valor similar deve ser percebido na nossa parte do universo.
Para a maioria dos físicos essa idéia não é levada a sério, mas para a grande surpresa deles, a energia escura de uma magnitude quase esperada foi detectada em observações astronômicas nos anos de 1990. Essa pode ser nossa primeira evidência de que há de fato um imenso multiverso fora daqui. Isso mudou muitas mentes.
A teoria do multiverso é ainda imatura, e alguns problemas conceituais permanecem a ser resolvidos. Porém, assim como Leonard Susskind escreveu, "Eu poderia apostar que na virada do século XXII os filósofos e os físicos irão olhar nostalgicamente para o presente e relembrar uma era dourada na qual um conceito primitivo e pequeno do século XX sobre o universo deu origem a um [multiverso] maior e melhor... de proporções confusas para a mente."
Fonte: http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=multiverse-the-case-for-parallel-universe
Tradução
Gabriel Shimizu Bassi
Coordenador Sociedade Racionalista USP
www.racionalistausp.wordpress.com
A inflação é um período de expansão superrápida e acelerada na história cósmica primitiva. É tão rápida que numa fração de segundos uma pequena partícula subatômica é inflada a dimensões muito maiores que toda uma região observada naquele momento. No final do processo de inflação, a energia que direciona a expansão dá origem a uma bola de fogo de partículas e de radiação. Isso é o que chamamos de big bang.
O término da inflação é iniciado pelo quantum, pelos processos probabilísticos, e não ocorre em todos os lugares ao mesmo tempo. Em nossa vizinhança cósmica, a inflação terminou há 13,7 bilhões de anos, mas ainda continua em partes remotas do universo, e outras regiões "normais", como a nossa, estão constantemente sendo formadas. As novas regiões parecem-se como bolhas pequenas e microscópicas, e começam a crescer imediatamente. As bolhas continam crescendo sem ligações; em seu meio-tempo elas são comandadas àparte da expansão inflacionária, deixando espaço para que mais bolhas se formem. Esse processo eterno é denominado inflação eterna. Vivemos numa dessas bolhas e podemos observar somente uma pequena parte dela. Não importa quão longe viajemos, não podemos ir além dos limites em expansão de nossa bolha, então, para propósitos práticos, vivemos numa bolha-universo auto-sustentável.
A teoria da inflação explicou algumas das outras características misteriosas do big bang que foram postuladas antes. Ela criou também diversas predições que podem ser medidas, as quais foram confirmadas espetacularmente por observações. Por quanto a inflação se tornou o paradigma mestre da cosmologia.
Outro aspecto chave das novas visões de mundo provém da teoria das cordas, a qual é atualmente a melhor candidata para a teoria fundamental da natureza. A teoria das cordas permite um número muito grande de soluções para descrever os universos-bolha juntamente às diversas propriedades físicas. As quantidades que denominamos constantes da natureza, tais como a massa de partículas elementares, a constante gravitacional de Newton, e outras, possuem valores diferentes em diferentes tipos de bolhas. Agora combine isso com a teoria da inflação. Cada tipo de bolha possui uma determinada probabilidade de se formar num espaço em inflação. Então, inevitavelmente, um número ilimitado de bolhas de todos os tipos possíveis serão formados durante a inflação eterna.
Essa visão do universo, ou multiverso, assim como é chamado, explica os velhos mistérios do por quê as constantes da natureza aparentam estar em sintonia para a emergência da vida. A razão é que observadores inteligentes existem somente naquelas raras bolhas nas quais, por pura coincidência, as constantes ocorrem exatamente para que a vida se desenvolva. O resto do multiverso se mantém estéril, mas não há ninguém lá para se preocupar com isso.
Alguns dos meus colaboradores físicos acham a teoria do multiverso impressionante. Qualquer teoria na física surge ou é derrubada dependendo se as predições estão de acordo com os dados. Mas como podemos verificar a existência de outras bolhas de universo? Paul Steinhardt e George Ellis discutem, por exemplo, que a teoria do multiverso não é científica, pois não pode ser testada, até mesmo seu princípio.
Supreendentemente, os testes observacionais das imagens do multiverso podem ser possíveis. Anthony Aguirre, Matt Johnson, Matt Kleban e outros alertaram que uma colisão de nossa bolha em expansão com outra bolha do multiverso poderia produzir uma marca na radiação cósmica de fundo - um ponto arrendondado de maior ou menor intensidade de radiação. A detecção de tal ponto com um perfil de intensidade previsto poderia fornecer evidências diretas para a existência de outros universos-bolha. A procura está lançada, porém, infelizmente, não há garantias de que as colisões entre as bolhas possam ter ocorrido dentro do nosso horizonte cósmico.
Há ainda outras abordagens que podemos seguir. A idéia é utilizar nosso modelo teórico do multiverso para prever as constantes da natureza esperadas, mensurando-as em nossa região local. Se as constantes variam de uma bolha para outra do universo, seus valores locais não podem ser previstas com certeza, mas ainda podemos fazer predições estatísticas. Podemos criar derivações a partir da teoria de quais valores das constantes têm maior probabilidade de ser medida por um observador comum no multiverso. Assumindo-se que somos esses comuns - a afirmação que denomino de princípio da mediocridade - podemos, então, prever os valores mais prováveis das constantes em nossa bolha.
Essa estratégia tem sido aplicada à densidade da energia no vácuo, também conhecida como "energia escura". Esteven Weingerg notou que em regiões onde a energia escura é grande há uma expansão muito rápida do universo, impedindo a matéria de formar galáxias e estrelas. Os observadores aparentemente não estão presentes nessas regiões. Cálculos demonstram que a maior parte das galáxias (e, então, outros observadores) estão em regiões onde a energia escura é quase da mesma densidade da matéria originada no período da formação das galáxias. As previsões dizem que um valor similar deve ser percebido na nossa parte do universo.
Para a maioria dos físicos essa idéia não é levada a sério, mas para a grande surpresa deles, a energia escura de uma magnitude quase esperada foi detectada em observações astronômicas nos anos de 1990. Essa pode ser nossa primeira evidência de que há de fato um imenso multiverso fora daqui. Isso mudou muitas mentes.
A teoria do multiverso é ainda imatura, e alguns problemas conceituais permanecem a ser resolvidos. Porém, assim como Leonard Susskind escreveu, "Eu poderia apostar que na virada do século XXII os filósofos e os físicos irão olhar nostalgicamente para o presente e relembrar uma era dourada na qual um conceito primitivo e pequeno do século XX sobre o universo deu origem a um [multiverso] maior e melhor... de proporções confusas para a mente."
Fonte: http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=multiverse-the-case-for-parallel-universe
Tradução
Gabriel Shimizu Bassi
Coordenador Sociedade Racionalista USP
www.racionalistausp.wordpress.com
Fonte: Scientific American
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Os assaltantes da consciência
| Os assaltantes da consciência |
Muitos cometemos o engano de atribuir a Goebbels a idéia da manipulação das massas pela propaganda política. Antes que o ministro de Hitler cunhasse expressões fortes, como Deutschland, erwacht!, Edward Bernays começava a construir a sua excitante teoria sobre o tema.
Carlos Ferreira
Bernays e o Tea Party americano (no Brasil também tem)
Bernays, nascido em Viena, trazia a forte influência de Freud: era seu duplo sobrinho.
Sua mãe foi irmã do pai da psicanálise, e seu pai, irmão da mulher do grande cientista. Na realidade, Bernays teve poucas relações pessoais com o tio. Com um ano de idade transferiu-se de Viena para Nova Iorque, acompanhando seus pais judeus. Depois de ter feito um curso de agronomia, dedicou-se muito cedo a uma profissão que inventou, a de Relações Públicas, expressão que considerava mais apropriada do que “propaganda”. Combinando os estudos do tio sobre a mente e os estudos de Gustave Le Bon e outros, sobre a psicologia das massas, Bernays desenvolveu sua teoria sobre a necessidade de manipular as massas, na sociedade industrial que florescia nos Estados Unidos e no mundo.
O texto que se segue é ilustrativo de sua conclusão: “ A consciente e inteligente manipulação dos hábitos e das opiniões das massas é um importante elemento na sociedade democrática. Os que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível, o verdadeiro poder dirigente de nosso país. Nós somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, nossas idéias sugeridas amplamente por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico de como a nossa “sociedade democrática” é organizada. Vasto número de seres humanos deve cooperar, desta maneira acomodada, se eles têm que conviver em sociedade. Em quase todos os atos de nossa vida diária, seja na esfera política ou nos negócios, em nossa conduta social ou em nosso pensamento ético, somos dominados por um relativamente pequeno número de pessoas. Elas entendem os processos mentais e os modelos das massas. E são essas pessoas que puxam os cordões com os quais controlam a mente pública”.
Bernays entendeu que essa manipulação só é possível mediante os meios de comunicação. Ao abrir a primeira agência de comunicação em Nova Iorque, em 1913, aos 22 anos, ele tratou de convencer os homens de negócios que o controle do mercado e o prestígio das empresas estavam “nas notícias”, e não nos anúncios. Foi assim que inventou o famoso press release. Coube-lhe também criar “eventos”, que se tornariam notícias. Patrocinou uma parada em Nova Iorque na qual, pela primeira vez, mulheres eram vistas fumando. Contratou dezenas de jovens bonitas, que desfilaram com suas longas piteiras – e abriu o mercado do cigarro para o consumo feminino. Dele também foi a idéia de que, no cinema, o cigarro tivesse, como teve, presença permanente – e criou a “merchandising”. É provável que ele mesmo nunca tenha fumado morreu aos 103 anos, em 1995.
A prevalência dos interesses comerciais nos jornais e, em seguida, nos meios eletrônicos, tornou-se comum, depois de Bernays, que se dedicou também à propaganda política. Foi consultor de Woodrow Wilson, na Primeira Guerra Mundial, e de Roosevelt, durante o “New Deal”. É difícil que Goebbels não tivesse conhecido seus trabalhos.
A técnica de manipulação das massas é simples, sobretudo quando se conhecem os mecanismos da mente, os famosos instintos de manada, aos quais também ele e outros teóricos se referem. O “instinto de manada” foi manipulado magistralmente pelos nazistas e, também ali, a serviço do capitalismo. Krupp e Schacht tiveram tanta importância quanto Hitler. Mas, se sem Hitler poderia ter havido o nazismo, o sistema seria impensável sem Goebbels. E Goebbels, ao que tudo indica, valeu-se de Bernays, Le Bon e outros da mesma época e de idéias similares.
A propósito do “instinto de manada” vale a pena lembrar a definição do fascismo por Ortega y Gasset: um rebanho de ovelhas acovardadas, juntas umas às outras pêlo com pêlo, vigiadas por cães e submissas ao cajado do pastor. Essa manipulação das massas é o mais forte instrumento de dominação dos povos pelas oligarquias financeiras. Ela anestesia as pessoas – mediante a alienação – ao invadir a mente de cada uma delas, com os produtos tóxicos do entretenimento dirigido e das comunicações deformadas. É o que ocorre, com a demonização dos imigrantes “extracomunitários” nos países europeus, mas, sobretudo, dos procedentes dos países islâmicos.
Acossados pela crise econômica, nada melhor do que encontrar um “bode expiatório” como foram os judeus para Hitler, depois da derrota na Primeira Guerra e, desesperadamente, organizar nova cruzada para a definitiva conquista da energia que se encontra sob as areias do Oriente Médio. Se essa conquista se fizer, há outras no horizonte, como a dos metais dos Andes e dos imensos recursos amazônicos. Não nos esqueçamos da “missão divina” de que se atribuía Bush para a invasão do Iraque provada com entusiasmo pelo Congresso.
É preciso envenenar a mente dos homens, como envenenada foi a inteligência do assassino de Oslo e desmoralizar, tanto quanto possível, as instituições do Estado Democrático sempre a serviço dos donos do dinheiro. Quem conhece os jornais e as emissoras de televisão de Murdoch sabem que não há melhor exemplo de prática das idéias de Bernays e Goebbels do que a sua imensa empresa.
São esses mesmos instrumentos manipuladores que construíram o Partido Republicano americano e hoje incitam seus membros a impedir a taxação dos ricos para resolver o problema do endividamento do país, trazido pelas guerras, e a exigir os cortes nos gastos sociais, como os da saúde e da educação. Essa mesma manipulação produziu Quisling, o traidor norueguês a serviço de Hitler durante a guerra, e agora partejou o matador de Oslo.
…
Carlos Ferreira - Engenheiro, com especialização em Políticas Públicas e Governo pela EPPG-IUPERJ. Atuo na área de energia nuclear. Sou ex-conselheiro do CREA-RJ e do Clube de Engenharia, onde atualmente sou membro do Conselho Editorial.
Fonte: http://www.desenvolvimentistas.com.br/
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